Arquitectura Sustentável

Os termos “amigo do ambiente”, “arquitectura verde”, “arquitectura ecológica”, “bioconstrução”, ”bioclimática”, “eco-eficiente” são diferentes maneiras de apelidar noções semelhantes ou próximas. A que melhor de adapta aos objectivos deste trabalho é a de “sustentável” na medida em que procura agir no presente de forma a não comprometer as gerações futuras. Um termo curto com um significado enorme.

Contrariamente a grande parte da arquitectura, o edifício sustentável reconhece que os efeitos social, ambiental e económico de cada pormenor estendem-se muito para além do limite do objecto.

“a actividade do artista (...) está em descobrir as potências implícitas da realidade, entendendo o projecto - segundo uma metáfora de larga tradição - como compreensão do que as coisas querem ser, mais do que à imposição de como estas devem ser.” (Collegi oficial d´arquitectes de Catalunya, 1983, p2).

O termo Biorregionalismo

O livro “Contemporary Design in Detail: Sustainable Environments” de Chen, Yenna e Kennedy, Alicia, Rockport Publishers, 2007, contém um capítulo intitulado “Bioregionalism”, em que dá então exemplos deste tipo de linguagem arquitectónica bastante contemporânea mas ao mesmo tempo extremamente cuidadosa e sensível à questão da arquitectura local. A palavra não existe no diccionário.

O trabalho orienta-se para esse campo, analisando casos de estudo, preferencialmente europeus, apenas por uma questão prática de proximidade e relação directa com a aplicação de conceitos.

Uma preocupação sempre presente no trabalho foi que, para além de todas as soluções constructivas e arquitectónicas estudadas, de todos os materiais e sistemas, mais ou menos tecnológicos, que possam existir actualmente, estes não poderão impor-se aos restantes parâmetros presentes na criação arquitectónica. O arquitecto continuará sempre a ser um artesão que utiliza a cultura, a sensibilidade, a prática, a experiência e sobretudo a sua identidade como ferramentas.

O interesse maior esteve sempre nessas obras e projectos que, com todos os parâmetros da construção sustentável mais ou menos presentes, se mantêm acima de tudo exemplos de boa arquitectura que revela uma identidade cultural local (regional ou nacional).

Daí a escolha do termo Biorregionalismo se adaptar à perspectiva da sustentabilidade que se pretende abordar.

Alguns dados relevantes

A energia incorporada na execução de um edifício corresponde no máximo a 20% da energia total consumida durante a sua vida útil. A maior quantidade está associada ao seu funcionamento .( Mateus,Ricardo,Bragança,Luis, 2006, p84)

Os edifícios representam cerca de 29% do consumo de energia em Portugal em 2004, sendo os restantes divididos em 36% nos transportes, 33% na Indústria e 2% na Agricultira e Pescas. Na Europa eles representam 40% do consumo de energia.

Os edifícios têm um potencial de poupança de mais de 30% com medidas que têm viabilidade económica e são fáceis de implementar (Maldonado, Eduardo, 2007). O consumo de energia no sector residencial divide-se da seguinte forma: 50% para produção de água quente sanitária; 25% para aquecimento e arrefecimento; 25% para iluminação. (Almeida, Manuela Guedes de.2005).

Actualmente no contexto europeu, a construção é responsável, em média, pela produção de 30% do total de resíduos produzidos (em todas as suas fases de produção, armazenamento, transporte, aplicação, manutenção, reparação e demolição).

“Cada noite, cada um de nós converte em dejectos 1,5kg de resíduos domésticos e 3kg de construção.” (Cuchí, Albert.2005.p4)

“Será que é necessário continuar a utilizar água potável para todas as funções residenciais quando só ingerimos 2% dela?”(Bertolo, Elisabete Peres.2007.p2)

“A biodiversidade na Terra está a diminuir a um ritmo de cerca de 50000 espécies por ano (…) o consumo de recursos naturais tem aumentado exponencialmente (…) numa sociedade cada vez mais numerosa, que cresce a um ritmo de 250000 pessoas por dia…”; “Estima-se, atendendo ao ritmo actual de crescimento, que as provisões de recursos energéticos não renováveis na biosfera só estarão disponíveis por mais cerca de cinquenta anos.” (Mateus,Ricardo,Bragança,Luis.2006.p24-25).

“(..)cada árvore normal, ao longo de um ciclo de vida de 30 anos, realiza as seguintes funções: produção e libertação de cerca de 10.000 kg de matéria orgânica, que cai sobre o solo e que através de compostagem natural,fertilizando-o, incrementando a camada fértil vegetal e evitando a erosão. No balanço entre a água absorvida água e libertada, apresenta um saldo positivo, pois liberta para a atmosfera cerca de 400.000 litros de água, ajudando a criar humidade atmosférica e potenciando a ocorrência de chuva, sobretudo quando em largas manchas florestais. Liberta para a atmosfera cerca de 8.000 metros cúbicos de oxigénio, (aproximadamente a mesma quantidade de oxigénio que cada ser humano consome num período de 80 anos de vida) e absorve da atmosfera cerca de 25.000 metros cúbicos de CO2, que fixa e transforma em oxigénio e matéria orgânica através de fotossíntese, ajudando a descontaminar o ar deste gás e a evitar o crescimento do efeito de estufa.” (Lira, Jorge, jornadas Quercus arquitectura sustentável 2007)

A primeira fonte do biorregionalismo: a arquitectura popular

Figura 176 - à esquerda os palheiros de Mira, corte e planta (AAP.1980); à direita concurso de Faro, corte e planta da casa-tipo e imagem virtual do conjunto.

A arquitectura popular continua a dar-nos eternas lições. Foi esta uma grande surpresa do trabalho. Está lá tudo e sempre esteve.A implantação em função do sol; o respeito pelo ecossistema entendido como parceiro; o uso da água; a energia do sol, do vento, das marés, dos animais; a massa térmica; as técnicas. Hoje já não temos nos sequeiros, nas eiras e nas cortes os espaços centrais da habitação. Hoje temos a garagem, o escritório, a lavandaria. A cozinha está contudo a sofrer novamente um processo de papel centralizador da vida doméstica (ligando-se com a sala) tal como o era na arquitectura popular (onde estava o lar). Os nossos quartos felizmente ganharam muita mais importância e atenção em relação às diminutas e claustrofóbicas alcovas muitas vezes encontradas nas casas antigas.

As exigências de conforto alteraram-se de forma abismal. Porém, voltamos às técnicas antigas em busca de um conforto ambiental ao tentarmos voltar a deixar as casas respirar. Depois de tantos anos a torná-las herméticas com os vedantes, com o corte térmico, com o poliestireno, com os selantes, vai ser difícil inverter as práticas com a reimplementação de técnicas como as argamassas de cal, a cortiça, a madeira. Mas vai ser possível, de certo.

A segunda fonte do biorregionalismo: o moderno regional

Nos anos 50 e 60 a arquitectura portuguesa soube afirmar-se face a uma fortíssima influência modernista potencialmente uniformizadora de linguagem.

Mantendo como fonte de inspiração e de estudo o que se passava na Europa e no Mundo, soube virar-se para dentro e passar a compreender melhor a paisagem, usando-a como elemento que justifica e dá sentido às construções. Encarou a paisagem como uma entidade com regras próprias e não como uma entidade a domesticar e disciplinar. Os edifícios modernos deste período fixam-se aos locais como se de árvores de tratassem, envelhecendo bem. Desde a arquitectura chã nenhuma corrente arquitectónica tinha ganho tanta expressividade e particularidade. A arquitectura ganhou sentido, ganhou texturas, em parte perdidas com o movimento modernista internacional. Figura 178 - à esquerda o conjunto popular na Fuseta, Algarve(AAP.1980); ao centro a obra da Malagueira de Álvaro Siza em construção(foto:revista Casabella 478); à direita a Malagueira nos dias de hoje (foto:Ekainj www.flickr.co A terceira fonte do biorregionalismo: o panorama internacional

A terceira fonte do biorregionalismo: o panorama internacional

Existem hoje muitas semelhanças com o período do pós-inquérito.

A construção brusca do pós 25 de Abril, sem um adequado acompanhamento técnico, provocou traumas sociais e paisagísticos aos quais a nossa condição latina se adaptou. Daí a sociedade ainda não ser tão exigente, por se ter habituado a uma má qualidade urbana geral. A arquitectura massificou-se, globalizou-se. A existência de grandes escolas (como correntes) deu lugar a grandes carreiras individuais às quais todos temos acesso imediato. A questão local está cada vez menos presente.

Em Portugal, observamos uma influência enorme da própria escola do Porto bem como de escolas europeias (holandesa, suiça, etc) onde o modernismo, funcionalismo e minimalismo tiveram as suas origens. Os resultados quando estas correntes são mal ou ligeiramente assimilados pelos arquitectos são uma construção com qualidade construtiva, mas que acusa cansaço.

O mercado da construção aproveitou bem esta corrente, ainda mais por ser fácil de imitar e de construir.

A arquitectura, tal como a sociedade, tem de tentar buscar o contacto com o ambiente natural. Esta busca tem que ser profunda, e com consciência da globalidade do sistema. Passamos alturas de recessão, possivelmente as menos propícias a projectos-piloto, que conforme se observa no trabalho, têm um apoio de Estado (Rennes, Friburgo, Edifício Solar XXI,BedZed), entidade fundamental na implementação de dinâmicas colectivas. Por outro lado são épocas de viragem, de questionar atitudes passadas.

É preciso buscar tal como busca Renzo Piano, uma das maiores referências deste trabalho.

Figura 179 – à esquerda solução da arquitectura popular em Portugal (AAP.1980.p395) e a obra do Banco de Lodi, em Milão de Renzo Piano (Buchanan,Peter.1993.p149)

O caminho já começou a ser trilhado, ainda de forma modesta, por Fernanda Seixas com soluções criativas como o aproveitamento de estufa anexa e sua integração nos espaços vitais (casa de Famalicão) , como com a parede de Trombe utilizando como superfície colectora a cantaria trabalhada existente da antiga escola (ISSSP em Matosinhos).

O Sistema de arrefecimento passivo do edifício solar XXI no INETI tem também de ser analisado e visitado pelos estudantes de arquitectura, tal como o é a Casa da Música (Nadir Bonaccorso também inclui ventilação passiva na sua obra de Setúbal).

A noção de massa térmica (ver Figura 180), a recuperação da energia térmica produzida pelos painéis fotovoltaicos para aquecimento ambiente deste edifício, promovendo a conveção natural entre os painéis e o interior do edifício, é outra das soluções que deverá fazer parte da bagagem de um arquitecto.

É necessário incutir a noção de que para chegar a uma protecção sustentável do solo e das águas superficiais, os futuros desenvolvimentos na gestão da água devem centrar-se no fecho dos ciclos e poupança de energia, seja no aproveitamento de águas negras (como o sistema DESAR) seja na reconversão dos resíduos como o caso do alumínio.

A síntese entre materiais tradicionais e tecnologia de ponta na obra de Rennes do arq Jean-Yves Barrier (estruturas de aço, adobe pré-fabricado com 60 cm num edifício de grande altura) deverá ser um dos destinos obrigatórios para jovens arquitectos, assim como o deverá ser o BedZed, em Londres.

A experiência física do bem estar de uma comunidade sustentável será de certo inesquecível.

Figura 180 – à esquerda o concurso para a casa na China de Nadir Bonaccorso em 2006,corte e planta (Bonaccorso,Nadir.2008); à direita a casa do americano Edward Cullinan, 1960, corte e planta. A utilização da massa – elementos densos/elementos leves - zonas funcionais/zonas de vivência (Galfetti,Gustau Gili.2002)

A par destas questões de consciência ambiental, não podemos esquecer contudo o nosso papel criativo. Exemplo disso é a abordagem crítica do grupo austríaco Moh architecture questionando a forma como a sustentabilidade é por vezes encarada como aplicações de sistemas mecânicos exteriores e padrões aprendidos, afastada da noção de arquitectura como entidade definidora de espaço, levando-os a desenvolver através de software a utilização dos factores e condicionamentos físicos e climáticos como ferramentas modeladoras de espaço originando formas abstractas partindo de respostas a elementos reais.

Do mesmo modo criativo, Nadir Bonaccorso propõe a colocação dos painéis prefabricados de Viroc cortados e postos a cutelo, explorando ao máximo as suas características ao nível da textura e da imagem como a nível de controlo solar (utilizando-o nas zonas envidraçadas como estores), assemelhando-se à atitude táctil de Carlo Scarpa.

Renzo Piano também desafiou uma das práticas bioclimáticas – a luz zenital – fazendo dela o cerne da sua obra Cy Twombly Gallery em Houston.

É preciso este optimismo interior para, tal como no conjunto BedZed, nos fazer pensar que afinal ainda é possível.

Home | Definições | História | Parâmetros | Materiais e Sistemas | Projectos em Portugal | Projectos Internacionas | Notícias
Copyright Miguel P. Guedes 2009