História do tema da Sustentabilidade na Arquitectura

A partir da descoberta do fogo, o Homem passou a utilizar as grutas naturais, protegendo a sua entrada com amontoados de pedras, tendo sido estes os primeiros tipos de construções de que há vestígios. A madeira, as peles de animais e a pedra, foram os primeiros materiais de construção.

Mais tarde, surgem os primeiros trabalhos de barro cozido e os primeiros aglomerados de casas circulares feitas de lama com palha e telhados de colmo. Este aparecimento atesta as primeiras manifestações de vida em sociedade e em local fixo.

Com a sedentarização inicia-se a civilização, que se crê ter começado na Mesopotâmia. Nessa altura, houve a necessidade de encontrar novos tipos de abrigos, mais robustos e duradouros, evoluindo-se para a utilização de alvenarias de blocos de terra amassados e para a construção em alvenaria seca de pedra de que ainda se encontram muitos vestígios. A construção foi assim evoluindo através da utilização e domínio de novos materiais como a pedra, a madeira, e mais tarde o ferro.

Posteriormente, foi edificando sobretudo por razões religiosas e de defesa de que são testemunhos os dólmens, alinhamentos mega1íticos, as pirâmides do Egipto e da América Central, a grandiosa Muralha da China, entre outros. A construção passa a ser uma arte e uma forma de afirmação entre os povos. Havendo a necessidade de materializar construções cada vez mais grandiosas e sólidas, o Homem através da observação do comportamento dos materiais que o rodeavam aprendeu a aplicar o desenvolvimento das ciências como a fisica e a matemática à construção.

À medida que as exigências ao nível da resistência das construções aumentavam, mais complexos se tomavam os processos de transformação das matérias-primas a incorporar nos materiais de construção. Os materiais deixaram de ser aplicados tal e qual como eram extraídos da natureza, o que implicou maiores consumos energéticos e maiores dificuldades na absorção destes materiais pelos ecossistemas, aquando da sua devolução, após o fim da vida útil das construções.

Início do séc. XIX – A mineralização do mundo. A evolução dita moderna das actividades rurais levou ao abandono de grande parte dos recursos renováveis do globo bem como à rejeição de técnicas perfeitamente fundadas e cuja racionalização teria sido eficaz. “Ao trabalho de experimentação e assimilação de todo o tipo que caracterizou a vida rural antiga, sobrepôs-se uma acção pontual, quase monodireccional e mecânica, que, se reflectirmos à escala da humanidade inteira, conduz indubitavelmente a um beco sem saída. (…) O desenvolvimento dos recursos é prejudicado pelo facto de ser doravante dirigido por não rurais ou desruralizados, dirigido cada vez mais para o proveito prioritário das actividades industriais citadinas, numa espécie de mineralização do mundo.(...) O primeiro exemplo disto foi, no domínio energético, a substituição da madeira pela energia fóssil, isto é, o carvão. (…) A substituição dos recursos vegetais pelos recursos minerais depende de causas que remetem para o desejo de poder e segurança: a produção agrícola, dispersa por numerosos produtores individuais, tem circuitos complexos, por vezes incertos (…) é mais difícil para as potências exteriores controlar a produção agrícola do que obter a concessão de jazigos. A matéria parece mais fácil de dominar do que os homens. ”(Einaudi.1986.p300). As consequências desta tendência são óbvias: dissociação geográfica entre países produtores e países utilizadores de matérias-primas; surgimento de inúmeras tensões; abandono irresponsável e inconsequente de jazigos antigos e mão-de-obra qualificada; recuperação cada vez mais escassa das matérias-primas.

Finais do séc. XIX - o surgimento do betão (as primeiras aplicações ocorreram próximo do ano de 1880), surge um novo material de construção que aparentava ser a solução para as crescentes exigências funcionais dos materiais - economia, resistência e durabilidade. Nas primeiras altura ainda com cal hidráulica e em trabalhos que nada tinham a ver com a edificação. Mais tarde, passou a ser utilizado na execução de paredes maciças, utilizando a técníca das paredes de taipa, nesta altura ainda sem armadura. À medida que os anos foram passando, o Homem foi sucessivamente interpretando e optimizando as características mecânicas do betão, tendo corrigido o seu comportamento mecânico à tracção através da introdução de aço em varão. Surge assim o betão armado, a “nova pedra mágica”, o material de construção mais utilizado, hoje em dia, e que se suponha ser a solução milagrosa para todos os problemas da construção.

Início do séc. XX - A obra do padre Himalaya (Manuel António Gomes, 1868-1933). Nasceu em Centufe , concelho de Arcos de Valdevez, em 1968. Aos 15 anos inscreveu-se no seminário de Braga, numa época em que florescia uma nova burguesia com uma nova mentalidade e que acompanhava o progresso tecnológico. No seminário era praticado um ensino inovador, dando grande importância à experimentação principalmente nos campos da agricultura e física. Contagiado com o ambiente vivido começa a pôr em pratica algumas das suas experiências. Dedica-se à radiestesia e é encarregue das obras de uma nova ala do Colégio. Entra em contacto com a fabrica de Massarelos (devido às obras no Colégio) vanguardista da industria metalo-mecânica da época, de onde poderão ter surgido os seus conhecimentos sobre fornos.

Com o forno solar pretendia obter azotatos da atmosfera para fertilização das terras. Desenvolve a primeira maquina solar, construída e testada em Neully sur Seine e a segunda construída em Paris e testada em Sorède. Em 1901 assina contracto em Londres com a Condessa de Penha Longa para explorar a invenção. Monta a sua primeira demonstração pública do Pyrheliophero, em 1902, que resulta num enorme fiásco, devido a erros de construção. Muda-se para França para aí construir uma maquina mais aperfeiçoada. Na demonstração publica consegue um grande êxito, com temperaturas de 3000-4000 graus que derretiam tudo o que se coloca-se sob o foco de luz. É premiado com “Grand Prize” da “Louisiana purchase Exposition”, credibilizando o seu evento. A produção industrial de azotatos só em 1905, por Birkeland e Eyde, é que veio a ser concretizada. Em 1908 integra a Academia de Sciências de Portugal, onde propõe diversas linhas de actuação para o ordenamento e prosperidade económica da “nação portuguesa”.

Com o passar dos anos, os defeitos do betão armado foram surgindo e aquele material que de início se julgava económico e eterno revelou as suas fraquezas: a sua durabilidade revelou-se limitada e muito dependente de onerosas intervenções de manutenção e reabilitação; os consumos energéticos dispendidos durante o fabrico dos materiais que o compõem - cimento e agregados - e durante as operações de demolição e de reciclagem, bem como a elevada quantidade de recursos naturais exigidos por esta tecnologia, revelaram-se incompatíveis com a escassa disponibilidade de recursos existentes na Natureza.

No final dos anos 60, início dos anos 70, começou a emergir uma forte corrente ambientalista em defesa da natureza, passando-se a considerar essencial, para o bem-estar e sobrevivência humana, a convivência em harmonia com a natureza.

A crise do petróleo da década de 70 ajudou a dar razão a estes novos conceitos emergentes, passando agora esta problemática também para a esfera económica e política (até aqui alheada), iniciando-se também a discussão em torno da poupança de energia.

Ao mesmo tempo, começa a despontar a consciência social acerca da fragilidade do planeta Terra e a palavra ecologia passa a ser um termo bastante utilizado, em parte também causado pelo desilusão de não se acreditar já na humanidade em si, tal era o rumo capitalista e economicista que ela levava.

1973 – O exemplo do casal Brenda e Robert Vale, hipotecaram todos os bens que tinham e resolveram mudar-se para o campo, construir uma nova vida ligada com a natureza e paralelamente construir uma casa auto-suficiente, tendo registado esta sua experiência em livro.

Esta discussão ambientalista atingiu também a indústria da construção, primeiro ao nível da energia dispendida na fase de utilização dos edificios e mais tarde ao nível da energia necessária à produção dos elementos construtivos. Nas últimas décadas, os elevados indices de emissões poluentes, a escassez de certos recursos naturais e os desequilíbrios daí resultantes mantiveram a discussão na ordem do dia.

Nos países mais desenvolvidos, as preocupações ambientais e ecológicas revelaram que certos materiais e tecnologias construtivas utilizados, como, por exemplo, o betão armado, causam grandes assimetrias no meio ambiente pois a quantidade de recursos naturais, necessários a estas tecnologias e a uma indústria da construção em crescimento exponencial, não é compatível com a capacidade de auto-regeneração desses recursos.

Com a evolução da investigação cientifica, assistiu-se ao aparecimento de novas tecnologias construtivas mais compatíveis com o equilibrio ambiental e ao ressurgimento de certas tecnologias utilizadas já há muitos milhares de anos e que tinham sido abandonadas na maior parte do globo, como por exemplo, a taipa e o adobe (ver Cap. VII ponto 6).

1984 - Construida no Porto a casa-laboratório termicamente optimizada – CTO (ver Cap. XI ponto 1).

1987 – Relatório Bruntland define pela primeira vez Desenvolvimento Sustentável como “desenvolvimento que satisfaz as necessidades actuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras para satisfazerem as suas próprias necessidades”.

Anos 90 - O petróleo e a energia durante toda esta década manterão um preço ainda baixo. A cimeira da Terra no Rio de Janeiro organizada pela O.N.U alertou a opinião pública mundial sobre as consequências da sobreexploração das matérias primas, o avançar inquietante do efeito de estufa e a acelerada e dramática degradação do equilíbrio dos ecossistemas. Os compromissos contraidos no Rio concretizaram-se em numerosas medidas relacionadas com actividade industrial, com os transportes, o control da energia e a gestão dos resíduos, incentivando os habitantes dos países industrializados a preservar os recursos naturais e a questionar o seu estilo de vida e seu modo de ocupação do território.

1990 - Na Holanda é estabelecido o NPM (National Environmental Plan) com a nota explicativa sobre Edifícios Sustentáveis. Foram conduzidos vários projectos experimentais e projectos piloto relacionados com novos edifícios e recuperação de habitações existentes, com vista à aplicação prática dessa teoria. A avaliação desse grande número de experiências práticas e projectos piloto, suportada pela SEV Steering Committee on Experiments in Housing, e inserida no programa experimental Schoner Woner (modo de vida sustentável) originou a publicação do Environmental Preference Method.

1990 – Publicação em Portugal do Dec-Lei 40/90 de 6/2 – RCCTE Regulamento de Comportamento Térmico dos Edifícios, com os seguintes objectivos: primeiro passo (pouco exigente) para introduzir aspectos térmicos/energéticos no processo de projecto; permitir o conforto térmico com redução das necessidades energéticas; introduzir requisitos mínimos para a envolvente (paredes, lajes, coberturas e vãos em contacto com exterior) como o coeficiente de transmissão térmica máximos para minimizar condensações interiores e sombreamentos mínimos para evitar sobre-aquecimentos significativos no Verão. Este foi o primeiro regulamento europeu obrigatório para a estação quente – todos os demais eram regulamentos de “isolamento térmico”. Serviu para introduzir recurso sistemático ao isolamento térmico na construção, até então nas mãos da opção dos profissionais da construção. Tornou habituais conceitos como isolamento e sombreamento. Porém deparou-se ser modesto e ineficaz. O mercado evoluiu mais do que o próprio regulamento aplicando-se poucos anos depois da sua publicação mais isolamento do que o regulamentar.

1993 - Publicação na Holanda pelo SEV do EPM (Environmental Preference Method) sendo poucos anos depois usado por mais de 50% das autoridades locais holandesas para definições de directrizes no planeamento.

1995 – Introduzido na Holanda o método de normalização do desempenho energético EPN, desenvolvido para verificar o consumo de energia calculado de uma habitação face a um máximo desempenho padrão energético permitido, o desempenho padrão é estabelecido pelo Ministério da Habitação, Planeamento Físico e do Ambiente, estando o dever de controlo na mão das autoridades locais (filosofia semelhante ao agora implementado em Portugal com o RCCTE, com a variante de que em Portugal é uma entidade central única que controla os valores dos desempenhos energéticos, a ADENE).

1996 – O método EPM é já usado como ferramenta de avaliação em sete paises da UE, como por exemplo nos projectos segmentados Energicomfort 2000 e European Housig Ecology Network oriundos do Thermie Building .

1999 – Protocolo de Quioto (apenas finalmente ratificado em 2005) – Apesar de os preços da energia se manterem baixos, crescem as preocupações com as emissões de GEE (gases “efeito de estufa”), chegando-se à conclusão que em dez anos o exponencial aumento do consumo de energia tinha sido o principal responsável.

A UE, preocupada com o cumprimento das metas de Quioto e igualmente com a segurança do abastecimento (previa-se que em 2020 a europa importaria 80% da sua energia) , avançou com a proposta de uma directiva sobre EPBD Energy Performance Directive Building.

2002 – Directiva Comunitária 2002/91/CE publicada em 4/1/2003 relativa ao desempenho energético dos edifícios (ver Cap. XI).

2005 – O Programa GreenBuilding (GBP) destinado a estimular poupanças adicionais nos edifícios do sector não residencial (ver Cap. XI).

2006 – Inaugurado o Edifíco Solar XXI construido em Lisboa, no INETI. (ver Cap. IX ponto 2).

2006 – D-L 80/2006 de 4/4 RCCTE Regulamento de Comportamento Térmico dos Edifícios (ver Cap. VII).

2006 – D-L 79/2006 de 4/4 RSECE Regulamento dos Sistemas Energéticos e de Climatização nos Edifícios (ver Cap. VII).

Primeiro voo da Virgin no verão de 2008 Londres-Amesterdão com biocombustível. Apenas 20% do combustível usado era de fontes sustentáveis, porém o efeito na opinião foi esperadamente ampliado.

2009 - Medida Solar Térmico 2009 pretende a instalação de 250 000 a 300 000 metros quadrados de painéis solares técnicos no segmento residencial, cerca de 65 mil habitações (ver Cap. XI).

Em Janeiro de 2009 efectuou-se o primeiro voo de demonstração de uma companhia aerea americana utilizando biocombustível. O aparelho era um Boeing 737-800 equipado com motores CFM56-7B, da CFM International.

O combustível, feito a partir de uma combinação de componentes que incluem derivados das plantas alga marinha e pinhão-manso, fontes sustentáveis, de segunda geração, que não apresentam nenhum impacto para plantações de alimento ou fontes de água, além de não contribuírem para a desflorestação.

O voo de demonstração com biocombustível foi o primeiro operado por uma companhia aérea comercial utilizando a alga marinha como fonte de combustível e o primeiro utilizando uma aeronave bimotor: O combustível usado em um dos dois motores CFM é uma mistura formada por 50% de combustível comum para jatos e 50% do biocombustível feito com alga e pinhão-manso. Uma série de parâmetros foram registrados e uma análise de motor pós voo contribuiu para definições que devem mostrar que o biocombustível é um substituto para o combustível comum, sem nenhuma degradação de desempenho ou segurança, além de redução na emissão de carbono. Fonte: [http://redeenergia.org/?p=1239]

Capítulo II. A Sustentabilidade na Arquitectura Popular Portuguesa

1. Localização, implantação, forma e orientação da construção no terreno

1.1.

Implantação e orientação
O aproveitamento das condições locais é uma preocupação antiga e popular, feita de experiência secular, transmitida entre gerações e através de tentativas-erro. O relevo era uma condicionante incontornável. Se ele fosse acentuado, criavam-se socalcos, aproveitavam-se muros e poupavam-se aqui mais umas paredes, do mesmo modo que se aproveitava a constante temperatura amena da terra, para aí localizar as lojas, cortes ou arrumos. Estes muros serviam muitas vezes para suportar a escada. A orientação era ditada pela função da construção. O alpendre, a eira, o sequeiro orientavam-se a sul ou próximo servindo de distribuidores funcionais junto com a cozinha, o espaço nuclear da habitação popular.

1.2.

Fusão do construído com elementos naturais envolventes.
A integração e o respeito pela envolvente, surgem nestes casos de forma expontânea, porém sábia, uma vez que a questão económica e o perspicaz aproveitamento das oportunidades físicas naturais estarão certamente na origem destes exemplos.

1.3.

Adaptação a um ecossistema específico.
O acto de construir nos domínios de uma bacia hidrográfica como a do rio Tejo, que antes da existência das barragens era um rio com grandes variações de caudal havendo cheias frequentes, levou a que os avieiros (habitantes da borda-de-água) construissem casas em madeira, montadas sobre estacaria. Igual adaptação é visível nos palheiros de Mira e da Tocha, formando aglomerados que se afastam da areia deixando as areias circular livremente sob elas com a acção dos ventos (ver Figura 2).

Uma hábil inserção que tem em conta um profundo conhecimento do ecossistema dunar, ele próprio em constantes mutações com os seus avanços e recuos naturais. Este exemplo exerceu enorme influência nas soluções do trabalho prático da praia de Faro, descrito na Parte 2 do presente trabalho, conforme se poderá observar.

2. Uso da Água

A vila de Monsaraz, no interior profundo e seco do alentejo, adoptou um notável sistema de recolha de águas pluviais colectivo através de uma complexa rede de caleiras e tubos de queda que encaminham as águas para uma grande cisterna comum (ver Figura 4). “(…) levou os habitantes a recolher a água que provém das chuvas e canalizá-la para uma grande cisterna, nos baixos do castelo, constituindo provisão comum a toda a população da Vila.”(AAP,1980, p550).

Também no Algarve, onde a água é menos abundante, recorre-se ao aproveitamento das águas pluviais que caem nas eiras em cisternas subterrâneas (ver Figura 5). “Os eirados são sempre protegidos por um murete relativamente baixo, e toda a sua superfície exterior é abundantemente caiada, como sucede geralmente nos terraces, a fim de quebrar a natural acidez das águas pluviais.” (AAP,1980, p623). Actualmente ainda se pratica este sistema na ilha da Culatra, porém as causas são o carácter ilegal das construções que ocuparam esta ilha barreira da Ria Formosa, areal, primitivamente apenas ocupada por instalações de apoio aos pescadores. Não deixa de ser engenhoso o aproveitamento tanto da água pluvial encaminhada desde a área de captação nos terraços e patios como também o aproveitamento dos lençois de água salobra da ria para descargas sanitárias, através de furos individuais, tirando partido da pouca profundidade a que esta se encontra (ver também Figura 61 com o ciclo da água).

3. Produção de resíduos

A utilização de materiais naturais existentes na região bem como o espírito popular poupado e desenvencilhado, torna os materiais e sistemas constructivos à frente descritos facilmente recicláveis e reutilizaveis. Os restos de barro, adobe, taipa e terra crua transformam-se rapidamente em solo; os restos das argamassas de cal facilmente se transformam em tinta de cal conforme se demonstra mais à frente; os resíduos da construção em pedra aparelhada facilmente se utilizam como entulhos, gravilha ou se reaproveitam para alvenaria ordinária para construção de muros e pequenas construções; as madeiras são rapidamente utilizadas como combustível.

4. Energia

4.1.

Solar – ganhos solares
Construia-se com o sol, a energia mais democrática. O sol tratava e por vezes curava. O sequeiro, a eira, necessitam do sol e do sul. Os habitantes precisavam igualmente de se aquecer, sobretudo nos locais mais interiores e agrestes.“Mas é sol-que aquece gratuitamente- o mais importante auxiliar nessa luta contra o frio. Expor-se aos raios de sol constitui a melhor das defesas. E as varandas bem orientadas são os elementos arquitectónicos mais adequados para o efeito que o beirão concebeu e constrói.” (AAP.1980.p289). Este é o factor primordial do uso das varandas nas Beiras (ver Figura 6).

O uso é tão frequente e de tal importância nas edificações, principalmente nos meios rurais, que as varandas tornaram-se os elementos mais característicos e funcionais da arquitectura regional beirã. Ainda hoje, com a invasão do betão e do alumínio, se nota a presença forte da varanda e da escada fronteira de acesso à casa, mesmo que sem o uso primitivo, pois na sua maioria são espaços hoje feitos de forma ostentativa e inóspita onde se torna desconfortável permanecer. “Sempre que possível orientam-nas para sul-poente. É o sector que mais horas de solquente recebe por dia, no Inverno, e também o mais abrigado dos ventos dominantes. (…) espaços, que participam simultaneamente do interior e do exterior das casas.” (AAP.1980.p291) No caso dos proprietários com mais posses, equipam-nas com envidraçados.

4.2.

Energia solar – controle incidência solar
Também se protegiam do sol quando necessário. Usavam para isso elementos naturais como a vegetação de folha caduca (provando-se ser ainda hoje uma eficiente medida) ou elementos construidos. Exemplo disso são as portadas de abrir exteriores de Silves assim como as protecções exteriores solares dos vãos nos conventos de Ponta Delgada (ver Figura 7) que, apesar de não ser esta a função primordial destes elementos sombreadores (associados também à clausura do convento), são um claro dispositivo de controlo solar pelo exterior, que é sem dúvida o sistema mais eficaz, sobretudo quando móvel e ajustável (exemplo do estore de enrolar contemporâneo).

4.3.

Energia eólica
É uma das fontes de energia renovável há mais tempo utilizada, para uma tarefa também em si milenar, a de moer os cereias para originar a farinha. Os raros exemplares de construção leve, em madeira com a particular característica de serem orientáveis pois giram sobre um eixo buscando a melhor posição face ao vento , localizam-se em zonas interiores com ventos de direções variáveis (ver Figura 8),”(…)com as pás dispostas como uma moderna turbina. De formato triangular, gira sobre um dos ângulos para permitir ao moleiro ajustar o engenho à feição do vento (…)”. Nas zonas onde o vento é mais fiel a construção assume uma construção mais robusta e firme em pedra “para o embate da nortada ou dos húmidos ventos do sudoeste. Quase ao lado, deparam-se, estranhos, os abrigos, enterrados na areia das dunas, onde os sargaceiros guardam as suas alfaias e barcos.” (AAP,1980, p108)

4.4.

Energia hídrica

Existem exemplares casos de uma adaptação engenhosa porém extremamente simples, pois envolve um esforço físico mínimo, tirando novamente o máximo partido das regras da bacia hidrográfica do Tejo.”Os moinhos de maré distribuem-se pela margem sul do tejo, entre Alcochete e o Alfeite. A sua presença é frequente nos esteiros, conjunto de terrenos alagadiços e braços de água serena. Quando a maré sobe, empurra a comporta e a água penetra numa pequena albufeira contígua ao moinho; quando a mare desce, a comporta fecha-se, estabelecendo desnível entre a água que ficou retida e a do esteiro que corre para o mar. Toda a água contida na albufeira passará então pelo moinho, fornecendo a energia que moverá as suas pás.” (AAP,1980, p419)

4.5.

Tracção animal

5. Salubridade dos edifícios e conforto ambiental

5.1.

Necessidades de ventilação natural
Em função das necessidades específicas de cada construção, assim se adaptam as soluções construtivas para responder a essas necessidades. O recurso à madeira, seja em paineis fixos com ripas afastadas entre si (fig.11), seja em portadas exteriores com paineis móveis (fig.7), tirando partido das qualidades deste material leve, facilmente trabalhado, possibilita amovimentação de ar controlando também a entrada dos raios solares. À parte destes casos de espigueiros, sequeiros e outras funções específicas que exijam grande ventilação (como indústrias, ver fig.15) a ventilação natural nas habitações não era um tópico planeado, uma vez que as soluções construtivas eram por si só bastante permeáveis (telhas pousadas, caixilharias não estanques, soalhos com espaçamentos entre peças) pelo que as casas ventilavam por si só, não havendo problemas de renovação do ar.

5.2.

Inércia térmica / massa dos elementos constructivos
À medida que descemos no país, vão diminuindo as aberturas que trazem o sol ao interior das habitações proporcionalmente ao aumento da temperatura média. A massa mantém-se de modo a assegurar uma forte inércia térmica nas construções, pois as amplitudes térmicas aumentam também, sobretudo nas zonas interiores. Se as propriedades resistentes da alvenaria decrescem (maioritariamente o adobe e taipa) criam-se contrafortes.

6. Exemplos de materiais e técnicas constructivas tradicionais

6.1.

Matérias-Primas
As técnica tradicionais de construção são o fruto de uma consolidação derivada a uma herança cultural que permitiu ao homem saber utilizar com exactidão cada material e aperfeiçoar o modo de o trabalhar.Grande parte dos factores actuais de degradação dos materiais derivam do desconhecimento das suas características e ao uso de materiais incompatíveis entre si.

6.2.

Pedras naturais
Alvenaria de pedra deverá ser construída de forma a acentar camadas coesas e horizontais, com uma boa arrumação da pedra (à fiada- no sentido longitudinal da pedra- ou em perpianho-no sentido transversal da pedra), podendo usar-se argamassa ou não.

6.2.1.

Alvenaria de pedra aparelhada
Alvenaria de pedra aparelhada (granito, xisto) constituída por pedras irregulares assentes em argamassa, sendo as faces formadas pelas pedras rijas de melhor aspecto.

6.2.2.

Alvenaria de pedra ordinária
Alvenaria de pedra ordinária (granito, xisto) também constituída por pedra irregular assente em argamassa porém de forma menos cuidada e por isso mais fácil e rápida. Alvenaria normalmente executada para ser revestida com reboco. Devido à irregularidade, introduzem-se por vezes tijolo ou pedras pequenas nos interstícios.

6.2.3.

Alvenaria de pedra seca
Alvenaria de pedra seca (granito, xisto; local: Minho, Trás-os-Montes. Beiras e Alentejo). É constituída por pedra assente sem argamassas, apenas com recurso a escassilhos e pequenas pedras que consolidam as paredes. Têm geralmente altura limitada e espessura nunca inferior a 60-80 cm.A técnica que melhor permite utilização de pedras existentes no terreno, e pelo uso de todas as formas permite um grande aproveitamento do material, reduzindo os desperdícios

6.3.

Pedras artificiais (tijolos de argila crua e cozida, telhas, azulejos, taipa)

6.3.1.

Taipa A Taipa (locais: Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve) é constituída por paredes monolíticas exteriores e interiores em terra (crua mediamente argilosa com adição de pedra miúda, cascalho, fibras vegetais, etc) compactada, com ajuda de um maço, no interior de cofragens amovíveis (dois taipais unidos). Tem baixa resistência à acção da água. Tem baixa resistência a alguns esfoços laterais provocados pela carga do telhado. Requer por isso embasamento que impeça contacto com água (directo ou por capilaridade). Recomenda-se o uso de reforços laterias quando necessário – os contrafortes. Deverá ser revestida com reboco à base de barro ou cal e areia e deverá ser caiada.

6.3.2.

Adobe
O Adobe (locais: Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve) consiste em: tijolos moldados a partir de terra crua argilosa (por vezes com adição de cascalho e cal), moldados em caixotes de Madeira com dimensões vulgares de 8x16x35cm (existindo muitas outras); a secagem ao ar leva cerca de 15 dias após fabricação, porém a qualidade e resistência aumentam com duração da secagem; excelentes qualidades térmicas e sonoras; o custo da matéria-prima muito baixo. Actualmente têm-se feito estudos e utilizam-se já estabilizantes aperfeiçoando a técnica (como os pozolâmicos, ver 1.8.7).

6.3.3.

Alvenaria de tijolo
A alvenaria de tijolo é em tudo semelhante à técnica do adobe, com a variante de serem cozidos em fornos a altas temperaturas.“O emprego do tijolo está generalizado em todo o Ribatejo e Estremadura. A sua expansão não só é facilitada pela natureza do solo que favorece a fixação das unidades fabris, como também pela abundância de transportes e rapidez de construção. O uso do material contribui para uma melhoria das edificações, quando substitui os tabiques de madeira ou o fasquiado, que constituíram a forma mais comum de divisórias interiores, mas não quando faz reduzir as paredes exteriores ao mínimo que a estabilidade exige, com manifesto prejuizo para as condições de isolamento(…)os construtores tiram partido dos cheios e vazios, dos claros e dos escuros, ao mesmo tempo que conseguem a criação feliz de ambientes semi-fechados.” (AAP,1980, p394e395)

6.3.4.

Telha de canudo
A telha de canudo, feita com base em terra argilosa e areia, é um dos símbolos que permanece até aos nossos dias na construção.

6.4.

Argamassas de cal
Argamassas de cal – misturas plásticas obtidas com areia, água e um ligante (a cal), que servem para ligar entre si as pedras ou os tijolos das construções de alvenaria e para as revestir com camadas protectoras e/ou decorativas (emboço, reboco, etc). A cal: método que consiste em cozer rocha calcária em forno, regada com água, usando para isso aditivo (tradicionalamente azeite, sebo, oleos vegetais ou animais; actualmente aditivos pozolânicos); poderão ser usadas como reboco exterior, reboco interior, argamassas isolantes para paredes em contacto com humidade; argamassa para betonilha

6.5.

Tinta de cal
Tinta de cal – feita através da mistura da cal (em pedra), de vela de sebo e alguma quantidade de água. A vela vai derretendo enquanto a cal ferve. A mistura é mexida obtendo-se uma massa pastosa à qual se vai juntando a água necessária, até uma consistência adequada para pincelar na parede. Se for desejado outra cor deverá juntar-se-lhe um pigmento à escolha.

6.6.

Madeiras
A madeira como material principal da construção, nunca foi tão forte e significativa como em comparação com países, sobretudo no norte da Europa, onde há casos de construção corrente integralmente em madeira. Excepção feita ao caso dos palheiros do litoral centro do país, onde a proximidade dos pinhais, rapidez de construção e possibilidade de construção leve sobre pilotis. No resto do país, este material tem uma utilização complementar ao invólucro maciço e resistente dos edifícios. Era sobretudo utilizada como estrutura de suporte de telhados, pavimentos em soalho, tabiques e taipas de fasquio, de construção de corpos apensos como varandas, cobertos e alpendres (ver Figura 18). Também utilizada nas construções de apoio (espigueiros, palheiros) pela sua leveza e possibilidades de ventilação assim como em carpintarias exteriores e interiores.

As principais madeiras nacionais utilizadas:
Castanho (Castanea sativa Mill) - Madeira de folhosa, desenho venado (tem veios) e por vezes ondulado, dura, leve, fácil de trabalhar e muito durável. Madeira de excelente qualidade, semelhante à do carvalho. Conserva-se melhor dentro de água do que exposto ao ar, não resistindo bem se exposto a intempéries, pela variabilidade das condições a que está assim sujeito. É atacado pelo caruncho. Pinheiro silvestre / casquinha (Pinus si1vestris L.) - Madeira de resinosa, pálida, de desenho venado, branda, leve, muito fácil de trabalhar e durável. Pinheiro silvestre / pinho (Pinus Pinaster) - Madeira de resinosa, pálida ou castanho avermelhado, de cerne distinto, textura grosseira, moderadamente dura e pesada, fácil de trabalhar, pouco durável e com alguma capacidade de retracção (a variedade pinheiro manso é idêntica mas mais nodosa). A madeira de pinho silvestre é heterogénea, de textura grosseira e de fio recto, com acentuado odor resinoso, tem boa trabalhabilidade e revela boa aptidão à colagem, recebe e mantém com segurança os pregos e os parafusos e é susceptível de adquirir um bom acabamento. É facilmente atacada pelos insectos embora se mantenha em bom estado de conservação quando se lhe dispensem boas condições de sanidade. Além de outros xilófagos também os carunchos das madeiras (anóbio, o nicóbio) atacam o pinho, com maior ou menor gravidade. Nalgumas regiões do nosso País são também consideráveis os estragos ocasionados pela térmite Reticulitermes Lucifugus, a vulgar «formiga branca». Os xilófagos marinhos como os teredos e a limnória. podem destruir rapidamente esta madeira quando imersa em água salgada sem protecção química.

Aplicações do pinho: Em todas as obras de construção civil em geral, tanto em carpintaria de toscos como em carpintaria de limpos. Sobretudo utilizada em elementos estruturais, em pavimentos de tacos ou soalhos, escadas, caixilharias, portas e janelas e em todos os trabalhos de carpintaria corrente. Destinada a todos os tipos de postes, travessas de caminho de ferro, esteios de minas, estacaria e outro material em condições de serviço ao ar livre, desde que se encontre convenientemente tratada.

Inconvenientes: Madeira geralmente com elevado número de nós, bolsas de resina e outros defeitos de estrutura. Impõe-se por conseguinte fazer uma criteriosa escolha e selecção do material por classes de qualidade definidas para os principais tipos de utilizaçào.

Vantagens: O pinho é uma excelente madeira de construção, tanto para interiores como para obras expostas ao ar livre, devido às suas características de resistência, trabalhabilidade e facilidade de tratamento com produtos preservadores.

Para utilizar as madeiras na construção é necessário dar aos troncos das árvores secção rectangular ou quadrada, para que posteriormente possam ser serrados convenientemente. A esta operação - colocar os troncos em esquadria - chama-se falquear ou falquejar.

O tronco assim falquejado recebe o nome de viga, empregue normalmente para suportar grandes cargas. As vigas são em seguida cerradas em pranchas ou em vigotas.( Figura 19).

6.7.

Taipa de fasquio ou tabique
Taipa de fasquio ou tabique – parede constituída por esqueleto em madeira fasquiada e estucada, com ausência de alvenaria pois levam apenas argamassa e a sua espessura regular deve ser de 10 cm. Não confundir com definição de taipa usada no sul, que serve para referir uma técnica de construção de paredes em terra batida e cujos suportes ao seu enchimento (taipais) emprestam o seu nome (ver 1.3.6.3.1). Já noutras zonas do Norte do País o termo taipa é aplicado para definir uma técnica de construção em que os barrotes de madeira são empregues para realizar uma estrutura reticular cujos vãos são cheios de tijolo burro e argamassa ou barro (ver 1.3.6.9. taipa de rodízio).

Técnica de construção de paredes interiores e exteriores, apenas utilizada para os andares superiores ao rés-do-chão, que é sempre feito de alvenaria de granito galheiro aparelhado. Estas paredes compõem-se de uma estrutura feita com tábuas de madeira, colocadas na vertical a prumo e sobre as quais se prega um segundo pano de tábuas na diagonal, travadas por último, com um ripado horizontal – o fasquio.O revestimento é o reboco, estanhado e pintura. Sobre este tipo de paredes devem aplicar-se tintas artesanais.

6.8.

Taipa de rodízio
A Taipa de rodízio – a construção desta estrutura de emadeiramento apresenta várias mortologias, de que salientamos dois tipos principais:

a) Vigas a prumo sem travamento entre elas, e apenas pregadas nas extremidades.
b) Vigas a prumo com travamento: travamento múltiplo - na perpendicular e em cruz; travamento simples - na diagonal (forma de N).Preenchem-se os espaços entre vigas assentando o tijolo burro com argamassa. A direcção do assentamento dos tijolos é variável. Os tijolos que se adossam às vigas devem ter sempre um corte lateral (em V) para melhor se encaixarem na madeira, permitindo à parede comportar-se como um todo. Este corte Iateral em "V' faz com que a junta entre a madeira e o tijolo se faça do modo "macho-fêmea" garantindo que o tijolo e a argamassa não se soItem da restante estrutura de madeira, podendo funcionar como um todo elástico mas coeso. De facto, neste tipo de técnica. em que se utilizam diferentes materiais, tem de se ter sempre um bom conhecimento da qualidade e das características dos elementos utilizados e da forma de os aplicar correctamente usufruindo de todas as suas potencialidades. Antes de aplicar o reboco e para que este agarre melhor, procede-se, segundo a prática tradicional, ao golpear da madeira (dentilhar), com um pequeno machado. Para reforçar este propósito pregam-se igualmente pregos de caibrar dobrando-lhes depois a cabeça. Actualmente este método é, nas mais das vezes, substituído pela colocação de uma rede (ex. rede de galinheiro), porque se por um lado é mais prático e rápido, por outro, garante uma certa estabilidade do reboco sobretudo devido ao facto que, hoje em dia, a madeira existente no mercado dificilmente apresenta qualidade, não permitindo, por isso, garantir que os restantes materiais se lhe ajustem compativelmente. Por fim aplica-se o reboco à colher (constituido por areia de rio, cal hidráulica, saibro e cal aérea. Finaliza-se o acabamento do reboco, aplicando-se com a talocha uma argamassa com espessura de 1 cm (estanhado). Sobre este tipo de paredes devem aplicar-se tintas artesanais. O assentamento dos tijolos pode ser feito na diagonal, na horizontal ou na vertical, como aliás inúmeros exemplos (ver Figura 20) o demonstram Aparentemente, e salvo eventuais estudos que venham a ser feitos e que demonstrem o contrário, tal colocação é meramente aleatória dependendo da vontade e sensibilidade do executante .

Capítulo IV. Os Percursores do Moderno Regional

Para a organização deste subcapítulo e distinção com seguinte subcapítulo dos percursores da arquitectura bioclimática, por não ser de todo simples, foi utilizada uma regra onde se agrupam no presente os arquitectos que não fazendo da sustentabilidade uma prioridade inteiramente consciente, souberam trazer à linguagem arquitectónica moderna algumas questões que mais tarde fariam parte dos pilares da sustentabilidade (à frente descritos). A selecção não é de todo inocente e imparcial, orientando-se sobretudo para o factor regional, e sobretudo para a Europa e paises de origem anglo-saxónica (EUA e Austrália), assim como para os mestres mais proeminentes e influenciadores (alguns sem o reconhecimento devido), tendo a perfeita noção de deixar de fora muitos outros mestres e pensadores igualmente importantes neste campo.

1.

Frank Lloyd Wright (1867-1959), o novo moderno americano
As questões da especificidade do local têm em Wright o seu expoente máximo. A extrema sensibilidade com que funde as suas obras com a envolvente é marcante. O respeito pela topografia e pela paisagem que assemelham as edificações a erupções e afloramentos geológicos assim como a materialidade que busca sempre referências locais, tornam-no um dos principais influenciadores da nova geração de arquitectos americanos com consciência ambiental (ver Figura 28).

Também a adaptação de técnicas constructivas ao local da obra é bem visível neste exemplo do Complexo e estúdio no deserto “Ocotilla” perto de Chandler, Arizona (ver Figura 29), erguido em apenas seis semanas, com um carácter assumidamente temporário. Uma barreira delimita e contorna todo o complexo seguindo a topografia natural da pequena colina, unindo as várias cabinas. As pranchas modulares de madeira revelam-se uma mais valia para uma construção que se quer rápida, temporária e delicada num local agreste como este. As mesmas pranchas foram usadas na construção das cabinas, sendo as coberturas formadas por telas translúcidas. A amplitude térmica do deserto ditou esta opção por sistemas de construção com muito pouca massa, amplamente ventilados, de modo que as elevadas temperaturas atingidas possam rapidamente ser dissipadas e não acumuladas. Exemplo da apropriação foi o facto de, após ter caído em abandono provocado pela depressão de 1929, ter sido literalmente em grande parte acartado pelas vizinhas tribos índias.

“As telas brancas luminosas suspensas e as usadas em vez de janelas de vidro proporcionaram uma tão agradável difusão de luz interior, tão aprazível e simpático no deserto, que agora eu sinto-me mais que nunca oprimido pela idéia do sólido opaco suspenso da maioria das pesadonas casas do Mid-west.” (Futagawa, Yukio, Pfeiffer, Bruce. 1985.p52-53)

2.

Alvar Aalto (1898-1976) – o conteúdo humano expresso na pedra, na madeira e no metal
Um outro mestre do modernismo que baseou a sua obra num profundo respeito pela natureza (a Finlândia é por si só uma experiência natural arrebatadora), segundo o próprio a natureza e a obra do homem deveriam ser unidos, para que se tornem uma mesma coisa. A experiência física de certas obras de Aalto é algo difícil de descrever por palavras. Na Villa Mairea a implantação em U cria um abraço entre construção e paisagem, tornando difícil a distinção dos limites de cada um (ver Figura 30). A própria cobertura vegetal da sauna (o extremo do U), aumenta esta sensação de diluição e de perfeita harmonia entre as partes.“A Finlândia (…) não era uma terra tecnicamente pioneira (…) nem uma lembrança feudal sobrepopulada a necessitar de uma revolução completa. Era uma sociedade (…) que estava pronta para receber os achados da ciência técnica mas ancorada firmemente nas suas valorizações tradicionais para se deixar impressionar pelo modernismo. Esta era literalmente a própria atitude de Aalto.” (Fleig, Karl,1963,p15).

A câmara municipal de Saynatsalo (ver Figura 31) também provoca esta sensação estranhamente familiar e acolhedora das obras de Aalto, e isso deve-se entre inúmeras outras características ao cuidado na relação interior/exterior, construção/natureza, o pátio serve como uma convite ao contacto entre ambos, cuidadosamente feito pelo delicado uso da topografia moldando o relevo, e criando uma plaza sobreelevada com ambiente calmo e intimista (ver Figura 33). É clara também a atenção dada à materialidade da obra, à verdade dos materiais, pelo uso de tijolo local e de estrutura de suporte do telhado aparente. O agreste Inverno da Finlândia torna fundamental a ventilação entre face exterior e interior da cobertura, pelo que fica assim facilitado passando todos os seus elementos principais estruturais para dentro da sala.

O conjunto fabril com habitação de Sunila é igualmente um exemplo supremo de uma concepção surpreendentemente cuidadosa perante a natureza, ainda mais pelo impacte inerente ao programa industrial pedido (ver Figura 33 e Figura 34).

A equipa de engenheiros disse que a fábrica deveria ser colocada à cota baixa, arrasando uma pequena colina. Aalto manteve a colina e construiu a fábrica em plataformas ao longo da encosta. “Ao ajustar-se maleavelmente à natureza, a fábrica tal como a comunidade de Sunila, tornou-se de facto uma espécie de natureza reforçada, uma entidade completa que não só possui uma invulgar beleza paisagística como também transmite um sentimento reconfortante que aqui o homem vive e trabalha em harmonia com o mundo criado.” (Fleig, Carl.1963.p16).

3.

Carlo Scarpa (Veneza, 1906-1978) – a obra em constante mutação
Apesar de ter dirigido a Escola de Arquitectura de Veneza sem ter a licenciatura (apenas dada postumamente), foi responsável por um modernismo contra a corrente, um certo regionalismo desligado da corrente modernista global da época. As técnicas de construção locais eram usadas sabiamente de forma a tirar o maior partido táctil e plástico das suas características, sempre pelo lado da verdade.

“Em Scarpa a forma surge de uma série quase infinita de decomposições, onde cada parte, cada elemento, quer ser expressado desde a sua individualidade, desde a sua lógica específica. Esta vontade fragmentada é consequência de um entendimento da arquitetura desde a presença táctil, desde o seu valor sensual, pretendendo assim justificar a construção da forma a partir da experiência sensível mais do que da abstracta definição intelectual. Esta atitude também é aqui reflexo de uma concepção espacial próxima da visão cubista e neoplástica, que entende a forma através da justaposição planimétrica, em oposição à definição do espaço através da continuidade. Em Scarpa cada fragmento se nos oferece como o resultado dos vestígios que as tensões concretas deixam sobre a matéria; onde o contexto, a fabricalidade, o uso, a estabilidade, são questões das quais o arquitecto deduzirá critérios com os quais modelará o magma matérico(...) Arquitectura de fragmentos que em alguns casos presta homenagem à unidade” (Collegi oficial d´arquitectes de Catalunya, 1983, p2). As suas obras eram definidas muito de acordo com o contexto. Não havia desenhos definitivos em obra, mas sim apontamentos de um desenvolvimento orgânico do processo de criação e construção.“Tudo podia ser, e de facto era, revisto ou modificado até ao último momento. As soluções possíveis de cada problema eram inumeráveis para Scarpa, como as formas na natureza: a natureza é inumerável, costumava dizer(…) Nas largas e freqüentes visitas que realizava vigiava e comparava o que já se havia construído com oq UE sómente era um esboço.Pedreiros, carpinteiros, serralheiros e demias colaboradores participantes na construção do edifício eram como prolongamentos naturais do arquitecto.” (Collegi oficial d´arquitectes de Catalunya, 1983, p2).

O betão da fundação Querini Stampalia e a entrada principal da IUAV (ver Figura 36) são exemplos de como Scarpa, utilizando materiais pobres, soube por um lado mostrá-los com uma sinceridade absoluta e de outro extrair impensáveis qualidades expressivas. A sua grande lição é a de ensinar a importância do detalhe, assim como a forma de modelar o terreno e a paisagem dando-lhes sentido e significado.

4.

Louis Kahn(1901-1974)–registar naquilo que se faz o modo como é feito
Kahn era um admirador de Wright e sobretudo um bom entendedor, apesar de muito crítico, pois segundo ele ”os imitadores de Wright são de um estrato inferior aos imitadores de Corbusier. Wright é mais arbitrário, pessoal, experimental e desafiador da tradição” (Brownlee, David B., De Long, David G., 1997, p69). Na sua obra da casa Weiss House, Pa, 1947-1950 (ver Figura 37) Kahn insistia que a esta obra, com a arrojada utilização do trabalho em pedra local e madeira natural, era contemporânea mas não rompia com a tradição.

Apesar de prioridades mais marcantes como a diferenciação do espaço e a procura da nova monumentalidade capaz de satisfazer a eterna procura da humanidade para traduzir a sua força colectiva em símbolos, Kahn reintroduziu a antiga noção de massa com a estrutura abertamente assumida como suporte de peso. Isto levou a que fosse várias vezes descrito com difícil aproximação ao modernismo, contudo desconhecendo-se qualquer opinião contra o movimento.”Acredito que as instituições de ensino actualmente se afastaram da natureza da natureza. A natureza, natureza física, regista naquilo que faz, o modo como é feito. Dentro de nós está a completa história de como fomos feitos, e desta sensibilidade, que é a sensibilidade para o prodigioso, vem a busca de saber, de aprender e esta busca completa, penso eu, irá levar-nos a apenas uma coisa: como fomos feitos. (…) Arquitectura é o que a natureza não consegue fazer” (Louis Kahn em Brownlee, David B., De Long, David G., 1997, p136-150)

A forma como adapta a especificidade local a uma prática moderna internacional, bem como um grande conhecimento das técnicas construtivas (tijolo maciço, betão, madeira, pedra natural) faz de Kahn um mestre incontornável do moderno regional.

5.

O moderno regional português Após o inquérito à arquitectura popular portuguesa de 1955-1960, feito pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos assistiu-se a um período único na história da arquitectura nacional. Idealizado primeiramente como uma busca da identidade nacional, da “casa portuguesa” provou ter ido muito mais além. De facto, serviu para deitar esta última ideia por terra. Do Minho ao Algarve as diferenças revelaram-se enormes.”O que podemos reter deste inquérito são as lições de coerência, seriedade, economia, talento, sentido prático e beleza(...)Em vez de uma lista de formas e técnicas constructivas, através do conhecimento da terra e da maneira que a população se identificava como o seu ambiente natural, o inquérito adoptou uma abordagem territorial - formas de fixação e estilos de vida revelados pela apropriação do espaço: território, áreas construidas, edifícios. Outros temas que forem estudados em particular incluem contenção da paisagem, caracterização ambiental definição de espaço interior (organização, uso, serviços, mobiliário), processos associativos, factores psicológicos na utilização e tratamento de materiais, texturas, arranjos cromáticos e entendimento dos sistemas de expressão. ” (Incertum, Opus.1990.p57).

A influência deste inquérito fez-se sentir fortemente nos anos seguintes à sua publicação. A reacção possível a um movimento moderno que tomava um rumo global, um “estilo internacional” que continuaria a servir de referência mas agora com algo que se sentia português.

Algumas características próprias deste período:
Compreensão da paisagem, usando-a como elemento que justifica e dá sentido às construções, alonga os espaços, dá-lhes continuidade, dita as regras da sua organização interior (ver Figura 39); utilização de materiais locais contrastantes – madeira, granito, betão, mosaico, azulejo; aplicação de práticas da construção vernacular na nova arquitectura com o novo material – o betão armado; os materiais e sistemas de construção eram mostrados com toda a verdade. O conhecimento dos mestres do moderno internacional eram notórios, mantendo também essa lealdade .A visão de Siza (na casa de chá) aproxima-se a Alvar Aalto na obra da Câmara Municipal de Jyvaskyla (ver Figura 40). São ambas construídas para e com o local. Não poderiam estar em mais lado algum.

As obras não eram só de pequena escala romântica. Também nos programas urbanos este período revelou uma adaptação notável. Não se tratavam de reminiscências nostálgicas a uma arquitectura popular pitoresca. Eram assumidamente edifícios modernos com a particularidade de se fixarem aos locais como se de árvores de tratassem (ver Figura 41).

Um facto é que estas obras envelhecem muito bem. Adaptam-se ao passar dos tempos pela qualidade e solidez dos materiais usados e pelas apuradas noções de construção implícitas, resultado do inquérito e de uma pedagogia de arquitectura que nele se baseavam (Figura 42). Do mesmo modo também não passam de moda como muitos outros exemplos que pelos formalismos demasiado presentes ficam reféns da época em que foram construidos.

Desde a arquitectura chã, nenhum período arquitectónico voltou a ter tanta carga expressiva e identidade própria como este. A arquitectura ganhou texturas (ver Figura 43), em parte perdidas com o modernismo, ganhou massa. As preocupações com a paisagem fortaleceram-se, entendendo-a como uma entidade com regras próprias e não como uma entidade a domesticar e disciplinar. Construia-se também com o sol. Foi um período decisivo para o consolidar de uma arquitectura portuguesa.

Capítulo V. Os Percursores da Arquitectura Bioclimática e Eco-eficiente

Para a organização deste subcapítulo foram seleccionados três dos mais representativos arquitectos da actualidade na área de estudo abordada. A sustentabilidade na forma de arquitectura bioclimática é nestes casos intencional e por vezes tomada como missão principal de um projecto específico. Seja nas regras do terreno, do sol, da circulação do ar, no cuidado dado ao pousar a construção no solo, no detalhe estético dado a sistemas e complementos resultantes da tecnologia usada.

1.

Glenn Murcutt - o observador racional das forças naturais
Australiano, nascido em 1936, Vencedor do Pritzker Prize for architecture 2002, e por isso provavelmente o mais conhecido arquitecto australiano, reconhecido pela busca da autenticidade da arquitectura australiana, conseguindo conciliar as qualidades regionais e participar igualmente no discurso internacional modernista. “Esta mistura do exótico e do universal tornam a sua obra tanto intrigante como acessível.”( Beck,Haig,Cooper,Jackie, 2002, p9). O uso do ferro e da chapa ondulada poderão ser entendidos como referência vernacular à construção em chapa do interior australiano mas são também utilizados por razões de economia e utilidade, assim como pela falta de carpinteiros qualificados .”A busca de uma identidade nacional é um grande erro.O que importa é conceber um edifício que responda ao seu local particular” segundo o próprio Murcutt. Apesar do mito australiano da “varanda”, Murcutt nunca a utilizou, sendo desnecessário uma vez que os edifícios funcionam eles mesmo ambientalmente, socialmente e semioticamente como uma “varanda” (ver Figura 44).

Um método pragmático, com um compromisso de uma mínima exploração do sítio e de um retorno a uma utilização de materiais naturais e manufacturados, reflexos de uma preocupação pela diminuição dos recursos naturais. Um ambientalista observador atento da natureza e que nela se inspira. Junta aos princípios de Frank Lloyd Wright esta consciência ética de minimizar a inevitável perturbação da presença do homem na natureza. Os projectos são uma narrativa de revelações oblíquas de ambos edifício e terreno (a maneira como o pousa na terra, como funciona) , oferecendo vistas e topografias para contemplação, usando brisas, incidência solar – e mesmo o luar – para um melhor proveito. O modo de trabalhar o telhado (que aumenta a inclinação nas extremidades facilitando o escoamento das chuvas à medida que o volume aumenta) determina a estética arquitectónica pela clara expressão e função que este toma (ver Figura 45).

Uma observação racional das forças naturais e fenómenos que fornece analogias para o projecto, princípios explícitos para resolver problemas. A massa dos materiais é reduzida ao mínimo indispensável devido ao clima australiano quente com grandes amplitudes térmicas (ao contrário da pesada massa de Kahn, dado este lidar com climas americanos bem distintos), chegando a ser uma questão importante evitar a elevação dos telhados em vez da sua sustentação. Os telhados não fornecem simplesmente proteção do sol e da chuva. São desenhados como agentes activos na ventilação e técnicas de arrefecimento por evaporação (ver Figura 46). A sombra é calculada exactamente para um melhor equilíbrio entre as necessidades de verão e Inverno.

Murcutt é um artesão conformado, criando a construção como máquina e/ou organismo (ar-condicionado é impensável). “O edifício como corporificação de um contrato existencial da liberdade e responsabilidade humana, confrontando a inevitável destruição que acompanha a ocupação humana.”( Beck,Haig,Cooper,Jackie,2002, p11). Os elementos e complementos da arquitectura ganham em Murcutt um significado escultórico especial, como os tubos de queda que ficam assumidos passando a fazer parte inseparável do objecto (ver Figura 47).

2.

Thomas Herzog - A técnica ao serviço de um experimentalismo ambiental.
Arquitecto alemão, nascido em Munique,1941, desde sempre muito ligado à investigação tecnológica sempre orientado para aplicação prática à construção, publicou entre muitos outros dois livros Timber Construction Manual (Birkhäuser Verlag, Basel/Boston/Berlin 2004) e Facade Construction Manual, (Birkhäuser Verlag, Basel/Boston/Berlin 2005) que são actualmente autênticas bíblias de qualquer gabinete de arquitectura. Herzog pesquisa sobre a luz, a temperatura, a circulação e qualidade do ar usando um apurado conhecimento técnico.

O interesse pelo profundo estudo da energia solar desde o início das anos 70 (térmica e fotovoltaica) levaram-no a ser uma referência nesta área, que apenas actualmente começa a ser tida como um aspecto integrante de um projecto de arquitectura. Contudo o termo high tech, que lhe é inúmeras vezes aplicado é redutor de uma prática tão atenta ao contexto natural, ao efeito da construção no terreno e no ecossistema. Utiliza na obra de Regensburg todos os recursos técnicos e complementos de uma forma aparente, tratados de forma estética. A estufa criada pelas camadas de vidro que originando espaços de temperatura intermédia (ver Figura 49).

O estúdio Herzog+Partner fundado em 1972 tem como missão exercer uma prática com responsabilidade social e participar activamente no desenvolvimento científico e tecnológico assim como integrar aspectos relevantes para o ambiente em múltiplas maneiras – especialmente as possibilidades da energia solar. O trabalho é desenvolvido em estreita interação com instituições de investigação e universidades. Como resultado criaram-se projectos pilotos de planeamento urbano, edifícios pioneiros, protótipos de sistemas constructivos (ver Figura 48). A definição dos problemas e das condições envolventes são examinadas e interpretadas sistematicamente. A forma não é pré-determinada, mas criada dependendo da missão da obra como resultado do processo de design, conforme o caso. É a chamada performance form (ver Figura 50). Sempre com uma especial exigência de qualidade estética.

”No caso dos projectos a construir os dados climáticos locais são registados bem como as investigações correntes de forma a que, entre outros, determinem e posicionem o edifício. O interesse dominante e o âmbito do trabalho na prática é o de desenvolver uma composição, que inclua tanto as estruturas do edifício como a paisagem envolvente e espaços públicos, para alcançar o máximo de harmonia global da concepção arquitectónica. Usando simulações computorizadas os efeitos na forma do edifício, o posicionamento, a possibilidade de fazer uso da energia solar para fins de aquecimento, arrefecimento, ventilação e geração de energia para assegurar o conforto, são assim estudados. As soluções são encontradas gradualmente em discussões conjuntamente com os engenheiros.” (Herzog, Thomas, site oficial,2008 [referência de Setembro de 2008].Disponível na Internet em:‹ http://www.herzog-und-partner.de›) ; (Lin, Pei-Yi, Passive Solar Page,McGill University, Montreal, Quebec, Canadá,2001 [referência de Setembro de 2008]. Disponível na Internet em: ‹http://www.arch.mcgill.ca/prof/sijpkes/arch304/winter2001/plin8/passive_solar/herzog.htm›)

3.

Renzo Piano– a busca de uma integridade orgânica singular
Nascido em Génova, Itália, 1937. Renzo Piano Building Workshop (vencedor do Pritzker Prize for architecture 1998) é um dos casos mais ricos da actualidade no que diz respeito aos campos da sustentabilidade e arquitectura bioclimática, tanto pela extensíssima obra construída como pela profunda experimentação altamente tecnológica, orgânica, humanista e inevitavelmente respeitadora dos valores da natureza. Cada projecto é uma história. Os temas de cada uma dessas histórias podem surgir da envolvente natural, de técnicas constructivas primitivas, de sistemas constructivos apurados e detalhados esteticamente de forma a justificarem toda uma obra ou podem simplesmente surgir de uma simples necessidade de luz, de presença de paisagem natural, sempre explorada ao máximo. Os sistemas, soluções, formas e elementos que cria buscam a luz e colocam-na onde faz falta, fazem circular o ar dentro dos espaços, criam a inércia que cria o conforto, filtram o sol mas não o escondem.

Este respeito está presente de várias formas consoante as obras: no modo como mantém uma paisagem e nela se enraiza; no modo como transforma e reinventa uma paisagem acentuando-a e aperfeiçoando-a; e no modo como traz a paisagem nos casos onde ela não existe, assumindo o papel de criador. Este último exemplo está demonstrado na obra Schlumberger, em Paris. Tal como na câmara municipal de Aalto, também Piano teve necessidade de trazer a paisagem para o centro do edifício (ver Figura 52), como que uma enorme plaza viva, o espaço principal do edifício, só que neste caso (uma antiga fábrica) essa paisagem não existia. Logo foi planeada tendo em conta as suas mutações anuais ao longo do ano e tirando assim o máximo partido das regras da natureza para melhorar a proposta.

Por se tratar de uma reconversão de um edifício existente com presença muito forte, a atitude de cobrir novos espaços onde é necessária a protecção do sol e da chuva com coberturas têxteis tensionadas faz a transição da paisagem natural para os blocos construidos, de forma híbrida, entre o natural e o artificial. Solução que enriquece e passa mesmo a fazer parte da paisagem urbana deste pedaço de cidade.

“Os materiais, sejam novos ou antigos, são explorados para novos potenciais e os componentes refinadas até atigirem uma integridade orgânica original.” ( Buchanan, Peter,1993,p78). A natureza e tecnologia em interrelações íntimas.